- Revelado pelo clube e campeão da CONMEBOL Sudamericana 2022 e da CONMEBOL Recopa 2023, o atual capitão chega ao confronto com o Flamengo sabendo o que é vencer o gigante carioca no Maracanã.
- Na edição de 2026 da CONMEBOL Libertadores, viveu uma verdadeira montanha-russa de emoções.
As histórias de redenção costumam precisar de tempo. A de Junior Sornoza nesta CONMEBOL Libertadores foi escrita em apenas quatro meses, com um arco narrativo digno de um conto: a expulsão na estreia, as desculpas públicas, o pênalti que selou o primeiro lugar do grupo e, na terça-feira, a condução serena de um Independiente del Valle que se meteu nas Quartas de Final. O capitão do 'mata-gigantes' chega ao cruzamento com o Flamengo convertido outra vez no que sempre foi: o cérebro da equipe de Sangolquí.
O ponto de partida foi em uma noite difícil. Em 9 de abril, na estreia pelo Grupo H diante do Rosario Central, Sornoza recebeu o cartão vermelho aos 60 minutos após um desentendimento com Ignacio Ovando e deixou sua equipe com dez jogadores na Argentina, em uma partida que terminou 0 a 0. No dia seguinte, o capitão decidiu se manifestar por meio de um comunicado em suas redes sociais: “Em momentos de alta intensidade, as emoções podem transbordar e jogar contra nós”, reconheceu, antes de elogiar seus companheiros pelo “caráter e pelo esforço que tiveram para conquistar um ponto muito importante”. E encerrou com uma frase que acabou sendo profética: “Este é o caminho”.
O caminho, efetivamente, foi esse. O Independiente del Valle sustentou a campanha enquanto seu capitão pagava a suspensão, e o destino reservou a Sornoza uma simetria de roteiro: na última rodada da fase de grupos, outra vez diante do Rosario Central, o camisa 10 converteu o pênalti decisivo do triunfo em Quito que valeu o primeiro lugar do grupo. O mesmo rival que o havia visto sair expulso o viu selar a classificação. A dívida foi quitada onde havia sido contraída.
As Oitavas o devolveram ao seu papel de sempre. Na ida diante do Deportes Tolima, a equipe equatoriana golpeou em Ibagué, e na volta de terça-feira, no Quito, o capitão voltou a estar na origem de tudo: dele foi a falta cobrada da direita que gerou o rebote e o gol de Daykol Romero, a abertura de um 3 a 1 que fechou o confronto com um agregado de 4 a 1. Aos 32 anos, já não precisa ser o futebolista dos números chamativos: basta-lhe ordenar os tempos da equipe, executar cada bola parada e aparecer nos momentos em que os confrontos se definem.
Sua história com o clube, além disso, ajuda a explicar o peso da braçadeira. Nascido em Portoviejo, em 1994, Sornoza foi formado no Independiente del Valle e estreou na equipe principal em 2011, quando o projeto de Sangolquí ainda começava a ganhar espaço no cenário continental. Participou da primeira campanha do clube na CONMEBOL Libertadores, em 2014, com quatro gols e três assistências em seis partidas, e depois seguiu carreira por Pachuca, Fluminense e Corinthians, que desembolsou uma quantia milionária por sua contratação em 2019.
Quando voltou para casa, o clube já era outro — e ele tratou de torná-lo ainda maior: foi campeão da CONMEBOL Sudamericana 2022, da CONMEBOL Recopa 2023, dos Campeonatos Equatorianos de 2021 e 2025, da Copa do Equador e da Supercopa, antes de se consolidar como uma das grandes referências e capitão da equipe. Poucos jogadores do continente podem contar de dentro toda a história de um clube; ele foi protagonista em cada uma de suas etapas.
Nessa vitrine há um título que hoje vale em dobro: a Recopa 2023 foi conquistada nos pênaltis diante do Flamengo, no próprio Maracanã. Sornoza já sabe o que é olhar de igual para igual o gigante carioca em sua casa e voltar ao Equador com a taça. E seu passado brasileiro — duas temporadas no Fluminense, uma no Corinthians — lhe deu um conhecimento de primeira mão do futebol que agora enfrentará nas Quartas de Final.
Por isso o cruzamento com o Flamengo encontra o 'mata-gigantes' com seu capitão no ponto certo e com a experiência de ter vivido todas as versões possíveis de um confronto continental. A expulsão de abril ficou como o que ele mesmo pediu que fosse, uma lição. O que vem é a instância em que as equipes precisam que seus líderes estejam à altura, e o Independiente del Valle tem um que já demonstrou, dentro e fora de campo, que sabe como responder. O caminho, como escreveu naquela noite, é este.