A história de resiliência de Franco Torgnascioli, peça-chave do Montevideo City Torque

Franco Torgnascioli, arquero de City Torque
  • No verão de 2022, quando atuava pelo Everton de Viña del Mar, o goleiro foi diagnosticado com um carcinoma embrionário maligno.
     
  • Aos 36 anos, com cinco jogos sem sofrer gols em dez partidas da CONMEBOL Sudamericana 2026, ele é uma das razões pelas quais o Torque enfrentará o Mineiro por uma vaga na Final de Barranquilla.

“Sempre que você abre o resultado de um exame, a mão começa a suar e o coração dispara, porque estamos falando de saúde.” Franco Torgnascioli disse isso em 13 de agosto, à Radio Uruguay, um dia depois de vencer o Tigre em Victoria sem sofrer gols. Aos 36 anos, ele é o goleiro do Montevideo City Torque e, em novembro, fará o último controle de um protocolo de acompanhamento de cinco anos que começou no pior verão de sua vida.

Entre aquele exame e este, houve uma virada por 3 a 0 diante do Cienciano, uma Semifinal da CONMEBOL Sudamericana — a primeira da história do clube — e uma maneira de entender a profissão que ele resume assim: “O goleiro lida com muita frustração. Mas, para a vida, isso acaba servindo, porque deixa a cabeça bastante preparada para o sofrimento.” Foi esse aprendizado que depois ele aplicou fora de campo.

Torgnascioli nasceu em 24 de agosto de 1990, em Salto, no Uruguai. Formou-se no Saladero, no Peñarol de Salto e no Ferro Carril antes de chegar ao Danubio em 2007, estreou na primeira divisão pelo Boston River em março de 2013 e foi campeão uruguaio com o Danubio na temporada 2013/14. Em 2016, transferiu-se para o Pachuca e, a partir daí, começou uma década de mudanças: Mineros de Zacatecas, Lorca, na Espanha, Everton de Viña del Mar, San Luis de Quillota e Unión Española. Seu último jogo de 2021 foi em 4 de dezembro, na derrota por 3 a 0 para a Universidad Católica. Durante as férias, um exame de rotina detectou um tumor.

O comunicado do Everton, de 2 de fevereiro de 2022, não deixou margem para eufemismos: “carcinoma embrionário de caráter maligno”. O que veio em seguida foi uma cirurgia de urgência, um ciclo de quimioterapia de três semanas e, se tudo corresse bem, a expectativa era de retorno no fim de abril. Torgnascioli encarou a situação como encarava os jogos. “Levei isso muito bem, com calma, e agi rápido”, contou ao Publimetro um ano depois.

Antes do previsto, em 7 de março de 2022, ele voltou aos treinamentos e escreveu nas redes sociais: “Hoje é um dia muito especial. Depois de um período afastado dos campos, voltei aos treinamentos. Obrigado a todos que tiraram um tempo para me encher de energia e me ajudar a enfrentar este processo. Feliz por voltar ao meu querido Everton.” Em maio, ele voltou a defender o gol.

Carregando esse aprendizado consigo, e com um corpo que já não era exatamente o mesmo, Franco encarou um cenário desafiador no âmbito profissional: seguir em frente e conquistar novamente o seu lugar. “Tive uma doença que exige controles durante cinco anos. Depois disso, você recebe alta. Quando retiraram o tumor e fiz a quimioterapia, eu já estava curado, e agora os exames são preventivos. Levo uma vida normal”, explicou em 2023. Essa vida normal incluiu um empréstimo ao San Luis, o retorno ao Everton, duas temporadas no Unión Española e, em 2025, a volta ao Uruguai depois de dez anos fora para defender o Torque. “Tive câncer quando estava vivendo um bom momento e você precisa se levantar de novo, voltar a lutar pela posição”, disse em agosto.

E ele lutou pela posição e a conquistou. Na CONMEBOL Sudamericana 2026, o Torque venceu seu grupo com 13 pontos, à frente de Grêmio, Palestino e Deportivo Riestra, eliminou o Tigre nas Oitavas de final e reverteu uma desvantagem de 2 a 0 diante do Cienciano com uma vitória por 3 a 0 no Centenario, pelas Quartas de final, com dois gols de Salomón Rodríguez e um de Nahuel Da Silva nos acréscimos. Torgnascioli foi titular nos dez jogos dos Citadinos na competição continental, sofreu oito gols e terminou cinco partidas sem ser vazado. Contra o Cienciano, quando o placar agregado ainda estava em 2 a 0, fez uma defesa decisiva em chute de Bandiera e espalmou para escanteio uma cobrança de falta de Martinich que ia no ângulo, em um momento em que um gol peruano teria acabado com a reação antes mesmo de ela começar.

Marcelo Méndez, o treinador, descreveu sua equipe naquela noite, em entrevista coletiva, com uma ideia que se encaixa perfeitamente no goleiro: “Para um treinador, ver seus jogadores darem tudo é a coisa mais gratificante que existe.” E acrescentou, no mesmo sentido: “Somos um grupo humano, todos remamos para o mesmo lado, não importa se um joga ou não, nem qual é o papel de cada um. Hoje estão aqui conosco dirigentes, cozinheiros e o pessoal da manutenção. Isso mostra o que é o clube: todos unidos e remando para o mesmo lado.”

Torgnascioli é uma das referências do elenco e, ao lado do capitão Gary Kagelmacher, é um dos responsáveis pelas preleções antes de cada partida. Além da virada contra o Cienciano, um dos momentos decisivos da melhor campanha continental da história do City Torque foi a vitória por 1 a 0 em Victoria. Sobre aquela noite, o goleiro contou como surgiu o discurso motivacional diante dos companheiros: “Eu não sou de planejar uma preleção. Falo o que vem do coração naquele momento.” Sua experiência de vida e os muitos anos de carreira fazem com que sua liderança aconteça de forma natural.

A Semifinal contra o Atlético Mineiro terá o jogo de ida em 14 de outubro, em Belo Horizonte, e a volta uma semana depois. O Torque é o único clube uruguaio entre os oito semifinalistas da CONMEBOL Libertadores e da CONMEBOL Sudamericana. Do outro lado estará uma equipe que foi finalista da CONMEBOL Libertadores em 2024 e da CONMEBOL Sudamericana em 2025, agora comandada por Eduardo Domínguez.