Mística do 'Pincha': de Zubeldía a Carrillo, uma história de façanhas internacionais

Estudiantes campeón de la CONMEBOL Libertadores 2009
  • O Estudiantes voltou à Final da CONMEBOL Libertadores após 17 anos e enfrentará o Palmeiras na decisão.
     
  • De Oscar Malbernat a Guido Carrillo, um percurso pela “mística” que define o Pincha quando entra em campo no torneio mais prestigiado do continente.

A história é reescrita sempre que o Estudiantes de La Plata supera um confronto equilibrado — e, na CONMEBOL Libertadores, isso acontece com frequência. Na edição de 2026, a campanha da equipe de La Plata ganha contornos épicos a cada passo rumo à decisão.

Em 16 de setembro, para superar as Quartas de Final na Neo Química Arena, Alexis Castro marcou aos 42 minutos do segundo tempo, enquanto Memphis Depay desperdiçou um pênalti por cima do travessão instantes antes do apito final. Foi uma classificação inesquecível, marcada primeiro pelo sofrimento, depois pelo alívio e, por fim, pela alegria.

Quando perguntaram a Guido Carrillo, capitão e maior artilheiro do clube na história da competição, se a mística havia entrado em campo, ele respondeu na entrevista coletiva após a partida: “Prevaleceram a inteligência e a personalidade”.

Esses fatores voltaram a ser determinantes em um palco tão exigente quanto histórico. Nas Semifinais, a equipe de Alexander Medina eliminou o atual campeão, Flamengo, no Maracanã, em uma disputa de pênaltis que teve Fernando Muslera como herói. Mais uma vez, o Pincha ficou às portas de um capítulo histórico.

O que vem a seguir é uma tentativa de organizar essas façanhas, com nomes e datas, porque a mística do Pincha tem algo de lendário, mas seus testemunhos a tornam realidade.

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Estudiantes campeón de la CONMEBOL Libertadores 2009

Alejandro Sabella, treinador do Estudiantes na última conquista da 'Glória Eterna', em 2009, apresentou uma das explicações mais célebres sobre o tema em uma entrevista à revista El Gráfico: “É difícil definir algo que se sente, que se toca, que se respira. A mística é um pensamento; são jogadores que vão ao refeitório de chinelos pedir água para o mate; são os quadros pendurados na concentração, os nomes de Zubeldía e Prátola nas placas que batizam diferentes espaços. Em síntese, é sentir-se identificado com um clube. O Estudiantes é um clube grande e pequeno ao mesmo tempo, uma mistura de gigante e família difícil de explicar”.

A Final contra o Cruzeiro, que deu ao León seu último título continental, tem um capítulo próprio nessa história de mística. Depois de um empate sem gols no jogo de ida, no Estádio Único, o time argentino reverteu no Mineirão uma desvantagem de 0 a 1 com gols de Gastón Fernández e Mauro Boselli. Juan Sebastián Verón, atual presidente do clube, disputou os 90 minutos e, uma década depois, recordou aquela noite como a união entre “avôs, pais e filhos em um abraço interminável”, em entrevista ao Olé. Seu pai, Juan Ramón Verón, foi peça fundamental no Estudiantes tricampeão da CONMEBOL Libertadores entre 1968 e 1970.

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Alejandro Sabella Estudiantes campeón CONMEBOL Libertadores 2009

Se for preciso buscar a origem esportiva dessa identidade, 1968 aparece inevitavelmente como ponto de partida. O capitão Oscar Malbernat, ao recordar a derrota no jogo de volta da Final daquela edição, explicou ao Clarín meio século depois: “Naquela fase, sentimos o impacto da derrota por 3 a 1 para o Palmeiras no Pacaembu. Depois da partida, reconhecemos que havíamos sentido demais a festa, o barulho antes do jogo, que havíamos adormecido. E começamos a adotar a estratégia de entrar em campo antes, absorver a pressão. Transformamos a pressão contra nós em algo positivo.”

Depois daquele 3 a 1 e da vitória por 2 a 1 no jogo de ida, disputado em La Plata, a série foi para um terceiro e decisivo confronto no Centenário de Montevidéu. Na capital uruguaia, o Estudiantes venceu por 2 a 0 e conquistou sua primeira CONMEBOL Libertadores. Era o início de uma era que deixaria uma marca profunda no futebol continental. O próprio ‘Cacho’ contou um pouco mais sobre aquela identidade fundadora: “Não éramos antifutebol, éramos incômodos. Aquele time nunca se entregava. Nunca comemorávamos nada, nunca.”

Osvaldo Zubeldía, o arquiteto, disse em 1968 à revista Sport, com a CONMEBOL Libertadores recém-conquistada: “Sempre se disse que os argentinos não sabemos marcar, e eu não entendo por que há quem se incomode porque o Estudiantes faz isso. O que acontece é que nos preocupamos com os detalhes, buscamos a forma de neutralizar todas as possibilidades dos nossos adversários e, como deu resultado, surgiram as reclamações.”

Raúl Madero, o médico que atuava como defensor, contou o outro lado, o de dentro do vestiário, em declarações que o Infobae reuniu quando ele morreu, em dezembro de 2021: “Formou-se um grupo espetacular. Durante a semana, estavam o técnico e os jogadores, ninguém mais, e quem tinha algo a dizer, dizia ali. Tivemos discussões pesadas. Éramos caras de personalidade forte e, se alguém não corria ou não dava tudo pelo companheiro, saíam brigas, mas tudo ficava ali. Zubeldía foi um gênio e teve ao lado um preparador físico de luxo como Jorge Kistenmacher, que acabava conosco nas dunas de Necochea.” Talvez aí já comece a se desenhar uma explicação para o que hoje é conhecido como mística: não dar nenhuma bola como perdida, permanecer sempre ao alcance do adversário e acreditar até o fim.

A ‘Bruja’ pai, autor do gol em Old Trafford contra o Manchester United que, meses depois, ajudaria a dar ao clube de seus amores o título da Copa Intercontinental, concordava com o método. “O mais importante foi a integração. Zubeldía uniu jogadores das categorias de base, os que já estavam no time principal e os que chegaram de outros clubes. E, especialmente, o professor Jorge Kistenmacher, com sua nova metodologia de trabalho”, disse ao Clarín em 2018. Marcos Conigliaro, que marcou em La Bombonera o gol do jogo de ida daquela Intercontinental, explicou ao Infobae em dezembro de 2025: “Tínhamos uma fome enorme de vencer. Tínhamos fome de glória.” Essa fome abriu caminho para outros dois anos repletos de glória para o clube.

A geração de 2009 herdou essa ideia e a expressou com suas próprias palavras. Leandro Desábato, zagueiro e uma das referências daquela equipe, disse ao Olé, em 2022: “O Estudiantes tem algo especial com a (CONMEBOL) Libertadores. A torcida e os adversários sabem disso. E o time cresce. Existe algo, não sei como definir, mas isso é transmitido; há uma energia que se sente por dentro”.

A Brujita, por sua vez, destacou o objetivo comum como ponto de partida. Após a conquista do Torneo Clausura de 2025, o ídolo e presidente do Pincha afirmou: “Temos uma história que nos torna sempre um adversário difícil nos confrontos eliminatórios. Aí encontramos uma motivação. O clube se une em torno de um objetivo e, quando isso acontece, coisas boas acontecem”. Leandro Benítez, autor do gol contra o Defensor Sporting nas Quartas de Final de 2009, foi mais breve, mas não menos preciso ao falar sobre a mística, em entrevista ao jornal de La Plata 0221: “É difícil explicar. Você precisa vivê-la”.

O atual elenco do León sabe que há algo diferente no ar da capital da província de Buenos Aires. Em sua apresentação, em junho de 2025, Fernando Muslera declarou: “Para mim, Estudiantes é sinônimo de mística e história. Dizer Estudiantes é dizer Juan Sebastián Verón, Sabella, CONMEBOL Libertadores”.

Guido Carrillo, depois da Final do Clausura de 2025, na qual marcou o gol de empate nos acréscimos contra o Racing para levar a decisão aos pênaltis e conquistar o título, acrescentou: “É um pouco da história deste clube. Quando tudo parece acabado e todos o dão como morto... ele ressurge. Isso é a mística”. Leandro González Pirez também falou sobre o tema após a vitória por 1 a 0 sobre o Independiente Medellín, que garantiu a classificação para as Oitavas de Final, em maio passado: “Enquanto em outros clubes a esperança se perde, aqui acontece o contrário: a esperança cresce e você sabe que algo vai acontecer. É uma recompensa por acreditar”.

Alexander Medina, o treinador, tem uma relação particular com essa história: em 2009, era o centroavante do Nacional eliminado pelo Estudiantes nas Semifinais e marcou um gol contra seu atual time no Centenario. “Parece que o destino também me coloca nessa história, porque naquela campanha eu estava do outro lado e tive que sofrer contra o Estudiantes”, disse em São Paulo após eliminar o Corinthians nas Quartas de Final. Em seguida, citou Sabella: “Atravessamos o Rubicão”, frase dita pelo treinador quando comandava a Seleção Argentina na Copa do Mundo de 2014 e que os torcedores de La Plata adotaram como sua.

O impacto também foi sentido no Maracanã. O Estudiantes eliminou o atual campeão nos pênaltis, com Muslera — que defendeu as cobranças de Jorginho, Lucas Paquetá e Bruno Henrique — como herói. O treinador destacou sua atuação: “Se estamos em uma Final hoje, é graças à grande atuação dele. Fico muito feliz por ele, porque ele não vinha passando por um bom momento. O Estudiantes o acolheu e o apoiou. Fizemos com que ele percebesse que tinha muito a oferecer. No Maracanã, com tudo o que esse estádio representa para os uruguaios...”

Inteligência, personalidade, preparação, sentimento de pertencimento, fome e fé. Cada geração encontrou sua própria palavra. Dezessete anos depois, o León está novamente entre os dois melhores times da América, graças à sua qualidade, personalidade e fidelidade à própria história.