Juan Manuel Basurco: o padre que fez história na CONMEBOL Libertadores

Juan Manuel Basurco, autor do gol do Barcelona contra o Estudiantes, na CONMEBOL Libertadores 1971
  • Juan Manuel Basurco era padre ao mesmo tempo em que jogava futebol profissional
  • Ele fez o gol da vitória do Barcelona sobre o Estudiantes, na "Façanha de la Plata"

A CONMEBOL Libertadores coleciona histórias que parecem até de cinema ao longo de suas 66 edições. E uma delas, talvez a mais curiosa, é a de Juan Manuel Basurco, o padre-artilheiro, que marcou seu nome na competição vestindo a camisa do Barcelona (EQU).

E padre não é um apelido por sua maneira de se comportar em campo. Basurco realmente vestia a batina. Depois de completar os estudos e se tornar sacerdote na Espanha, veio para a América do Sul como missionário no final da década de 1960.

Ao lado da fé, Basurco mantinha uma enorme paixão pelo futebol. Jogou nas divisões amadoras do futebol espanhol e, uma vez na América do Sul, chegou à elite do futebol equatoriano vestindo a camisa da Liga Deportiva Universitaria de Portoviejo.

As boas atuações pela pequena equipe os levou ao Barcelona, que tentava encontrar um artilheiro para seu elenco. A contratação, com permissão da igreja, aconteceu ao início de 1971, mesmo ano em que Basurco marcaria seu nome na história da CONMEBOL Libertadores.

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Juan Manuel Basurco, o padre que foi jogador

A primeira CONMEBOL Libertadores

Antes de explicar o feito de Basurco, é necessário contextualizar o que foi aquela CONMEBOL Libertadores de 1971. À época, o futebol sul-americano era dominado pelo Estudiantes de la Plata (ARG), tricampeão consecutivo (1968, 1969 e 1970) do principal torneio do continente. 

Vencer o Estudiantes parecia algo que beirava o impossível. Por ser campeã da edição anterior, a equipe argentina iniciou a CONMEBOL Libertadores daquele ano logo na fase semifinal. O regulamento era simples: a primeira fase dividia 20 times em cinco chaves e o campeão de cada grupo avançava para a semifinal, que consistia em dois grupos de três equipes cada – aqui entrada o Estudiantes na disputa ao lado dos cinco classificados.

O Barcelona chegou à segunda fase comandado por Alberto Spencer, artilheiro histórico da CONMEBOL Libertadores e autor de quatro gols na companha de 3 vitórias, um empate duas derrotas no grupo que tinha Emelec (EQU), Deportivo Cali (COL) e Junior Barranquilla (COL). As duas equipes somaram o mesmo número de pontos e fizeram um jogo extra para ver quem avançava.

O Barcelona se classificou ao vencer o jogo único por 3 a 0. E ali já acontecia o primeiro feito de Basurco. Ele balançou as redes pela primeira vez no torneio continental – Alvarez e Muñoz fizeram os outros gols da vitória.

“A Façanha de la Plata”

O Grupo 2 da semifinal contava com o Barcelona de Basurco, o Unión Española (CHI) e o temido Estudiantes de la Plata. Logo na estreia, a equipe equatoriana recebeu os argentinos e foi derrota por 1 a 0, gol de Juan Echecopar. Na sequência, venceu o Unión Española por 1 a 0.

Em 29 de abril de 1971 os mandos se inverteram e foi a vez de o Barcelona visitar o Estudiantes. E jogar no estádio Jorge Luis Hirschi, em La Plata, naquela época era certeza de derrota. A equipe argentina não perdeu nenhuma partida como mandante no caminho do tricampeonato da CONMEBOL Libertadores.

Mas isso mudou naquele 29 de abril. Aos 17 minutos do segundo tempo, Juan Manuel Basurco recebeu passe de Alberto Spencer e mandou para o fundo das redes de Gabriel Mario Flores. Era o gol da vitória. Um gol quase santo, de um padre que se aposentaria dos gramados meses após o histórico 1 a 0 em La Plata.

O Estudiantes liderou o Grupo B apesar da derrota e se avançou para a final, em que perderia a chance do tetracampeonato para o Nacional (URU). Ainda assim, o gol de Basurco e a histórica vitória do Barcelona (EQU) entraram para a história da CONMEBOL Libertadores.

O padre-artilheiro largou a batina e o futebol tempos depois. Casou-se, formou uma família e morreu em 22 de março de 2014, em San Sebastián, na Espanha, aos 70 anos. O filho Izaro disse ao jornal equatoriano “El Tiempo” que o pai não gostava de se vangloriar do feito em La Plata, mas sempre manteve a paixão pelo futebol.

“Ele tinha o futebol no sangue. Sempre que íamos à praça, ele levava uma bola. Sempre tentou nos transmitir a visão de que se trata de um esporte nobre, que tem que jogar com a verdade, sem simular faltas.”