- O ‘Titã’ disputou 45 partidas, marcou 23 gols e conquistou duas vezes a CONMEBOL Libertadores como um dos destaques do Boca Juniors.
- Agora como treinador, buscará conduzir o estreante Platense a uma classificação histórica diante do Fluminense, o mesmo adversário que encerrou sua última grande campanha como jogador no torneio.
A história de Martín Palermo parece construída em torno de uma regra própria: quanto mais difícil o desafio, maior se torna a sua figura. Sua trajetória é repleta de gols inesperados, retornos improváveis e noites em que transformou a adversidade em uma oportunidade para deixar uma lembrança eterna.
A CONMEBOL Libertadores foi um dos principais palcos da lenda que construiu à base de gols. Com a camisa do Boca Juniors, disputou 45 partidas, marcou 23 gols e conquistou a ‘Glória Eterna’ em 2000 e 2007. Mas os números do maior artilheiro da história ‘Xeneize’ contam apenas parte da história: Palermo protagonizou momentos que permaneceram para sempre ligados à memória do torneio.
Mais de duas décadas depois daquelas façanhas, o ‘Titã’ volta a perseguir uma missão continental. Já não espera dentro da área nem veste a camisa número nove. Do banco de reservas do Platense, tentará continuar escrevendo façanhas à frente do ‘Calamar’ em sua primeira participação internacional.
O retorno impossível contra o River Plate
Em 13 de novembro de 1999, Palermo sofreu uma ruptura dos ligamentos durante uma partida contra o Colón. A lesão parecia ter encerrado sua temporada e o obrigou a passar por uma longa recuperação. No entanto, seis meses depois, Carlos Bianchi decidiu incluí-lo entre os reservas para um dos jogos mais importantes do ano.
O Boca havia perdido por 2 a 1 para o River Plate no jogo de ida das Quartas de Final da CONMEBOL Libertadores 2000 e precisava reverter a série em ‘La Bombonera’. A imparável equipe do ‘Virrey’ pretendia estender sua hegemonia nacional ao cenário internacional e havia encaminhado a classificação com os gols de Marcelo Delgado e Juan Román Riquelme, mas ainda faltava a cena que transformaria aquela partida em uma epopeia.
Palermo entrou na reta final e, quando a noite se aproximava do fim, recebeu dentro da área, ajeitou a bola e finalizou de esquerda para fazer 3 a 0. Sempre resiliente, o ‘Otimista do gol’ havia voltado depois de uma grave lesão para marcar contra o River em um Superclássico e garantir a classificação para as Semifinais. O gol ficou eternizado como o ‘Muletazo’, um dos capítulos de sua longa história digna de Hollywood. A comemoração também foi inesquecível: tomado pelas lágrimas, abraçou todos os companheiros, o médico Jorge Batista, que o havia operado e acompanhado durante sua recuperação, Carlos Bianchi e todo o povo azul e ouro.
Um mês depois, completou a obra em São Paulo. Após dois empates contra o Palmeiras —2 a 2 em Buenos Aires e 0 a 0 no Morumbi—, a Final foi decidida nos pênaltis. Palermo converteu sua cobrança e o Boca venceu por 4 a 2 para conquistar a CONMEBOL Libertadores depois de 22 anos. Na Copa Intercontinental, marcaria duas vezes contra o Real Madrid em uma das páginas mais marcantes da história do futebol sul-americano.
O gol nos acréscimos que manteve vivo o sonho de 2007
Palermo precisou esperar sete anos para voltar a levantar o troféu. Em 2007, já não era apenas o artilheiro: era o capitão e uma das grandes referências de uma equipe que avançou rumo ao título superando diferentes situações adversas e contando com Juan Román Riquelme em nível extraordinário.
Um dos momentos mais delicados aconteceu nas Quartas de Final. O Libertad abriu o placar em ‘La Bombonera’ e parecia encaminhar uma vitória fundamental para o Paraguai, mas Palermo empatou aos 45 minutos do segundo tempo e evitou a derrota. O Boca venceu a partida de volta por 2 a 0 em Assunção e avançou às Semifinais com um Riquelme imperial e a contribuição de Rodrigo Palacio.
A remontada seguinte aconteceu em um cenário ainda mais impactante. Depois de perder por 3 a 1 para o Cúcuta Deportivo na Colômbia, o Boca precisava vencer por dois gols de diferença em uma Bombonera coberta pela neblina. Riquelme abriu o placar em cobrança de falta e Palermo apareceu de cabeça para marcar o segundo. Sebastián Battaglia completou o 3 a 0 e garantiu a vaga na decisão.
Na Final, o Boca venceu o Grêmio por 5 a 0 no placar agregado. Palermo não marcou, mas participou da jogada do primeiro gol da série e foi quem levantou o troféu em Porto Alegre. Sete anos depois do ‘Muletazo’, o artilheiro voltava a conquistar a América.
Três gols para conquistar Guadalajara
A CONMEBOL Libertadores 2008 reservou outra de suas atuações mais contundentes. O Boca havia empatado por 2 a 2 com o Atlas no jogo de ida das Quartas de Final em ‘La Bombonera’ e chegou a Guadalajara obrigado a buscar um resultado favorável.
Palermo resolveu o problema em menos de vinte minutos. Marcou três vezes no primeiro tempo e comandou a vitória por 3 a 0 que classificou a equipe argentina para as Semifinais. Foi seu único hat-trick na competição e mais uma demonstração de sua capacidade de tomar para si os jogos decisivos. Aos 19 minutos, abriu o placar com um chute de esquerda após um grande passe de Riquelme, em uma parceria indestrutível que marcaria as grandes odisseias ‘Xeneizes’. Aos 33, completou uma excelente jogada coletiva iniciada por um lançamento de Riquelme e seguida por uma arrancada fulminante de Palacio. E, aos 37, concluiu sua obra-prima com uma finalização primorosa: recebeu a bola fora da área e, da entrada, encobriu o goleiro com um toque por cobertura.
A campanha daquela equipe, que buscava o bicampeonato, terminou justamente diante do Fluminense. Palermo abriu o placar no jogo de volta disputado no Maracanã e colocou momentaneamente o Boca na Final, mas a equipe brasileira reagiu, venceu por 3 a 1 e avançou à decisão. Dezoito anos depois, o torneio volta a colocá-lo diante do mesmo adversário e no mesmo estádio.
Uma nova façanha, agora do banco de reservas
Palermo retornou ao Platense em agosto de 2026, depois de Walter Zunino comandar a equipe durante a Fase de Grupos. Teve apenas alguns dias para preparar o primeiro confronto internacional eliminatório da história do clube.
O ‘Calamar’ empatou por 1 a 1 com o Coquimbo Unido em Vicente López e segurou o 0 a 0 no jogo de volta, no Chile. A classificação foi decidida nos pênaltis: o Platense converteu suas sete cobranças e Juan Pablo Cozzani defendeu a última finalização para selar o triunfo por 7 a 6.
Assim, Palermo levou o estreante às Quartas de Final da CONMEBOL Libertadores. O Platense se tornou o primeiro clube argentino a alcançar essa fase em sua participação de estreia desde o Banfield, em 2005.
Não é a primeira vez que o ‘Titã’ chega tão longe como treinador. Em 2014, assumiu o Arsenal antes das Oitavas de Final, eliminou a Unión Española e conduziu a equipe de Sarandí até as Quartas. Doze anos depois, voltou a assumir um time antes de uma série eliminatória e novamente conseguiu colocá-lo entre os oito melhores do continente.
O desafio agora será diante do Fluminense, campeão da CONMEBOL Libertadores 2023. A série começará no Maracanã e terminará em Vicente López, onde o Platense buscará alcançar a primeira Semifinal internacional de seus mais de 120 anos de história.
Palermo já não poderá decidir a partida com um chute de esquerda, uma cabeçada ou um pênalti. Seu lugar estará à beira do campo, tentando transmitir ao ‘Calamar’ aquilo que definiu sua carreira: a convicção de que nenhuma história está encerrada enquanto ainda existir uma oportunidade.