- A celebração baseada no jogo de cartas espanholas apareceu em dose dupla na vitória por 2-1 sobre a Universidad Católica, no Chile, estreia na CONMEBOL Libertadores 2026
- Leandro Paredes, Miguel Merentiel e Adam Bareiro, seus artífices, tiveram participação direta (gols e assistências) em 77% dos gritos de gol do Boca no ano
O Boca Juniors soma, entre partidas por torneios argentinos e pela CONMEBOL Libertadores, 14 jogos de invencibilidade (oito vitórias e seis empates). A maré, para a equipe comandada por Claudio Úbeda, parece ter mudado. Os intérpretes fluem, o time consolida uma identidade. Nesse contexto, a comemoração do gol de Adam Bareiro contra o Instituto (2-0), na Bombonera, pelo Apertura 2026, em 22 de março passado, chamou a atenção: o paraguaio, o uruguaio Miguel Merentiel e Leandro Paredes, capitão do Boca, sentados no gramado, simulando jogar truco.
O truco é um jogo de cartas espanholas praticado na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, no sul do Brasil e em partes do Chile desde a época colonial. Mas, na Argentina, além de ser o jogo de cartas nacional por excelência, é um fenômeno cultural, um ponto de encontro entre amigos. Paredes, Bareiro e Merentiel o representam.
A comemoração do “truco sem cartas” reapareceu na estreia do Boca na CONMEBOL Libertadores 2026 contra a Universidad Católica, no Chile (1-2), e em dose dupla: no 0-1 de Paredes e no 0-2 de Bareiro. Sem gols do trio na vitória por 3-0 sobre o Barcelona de Ecuador, na Bombonera, pela segunda rodada do Grupo D, a comemoração pode voltar a ser vista nesta terça-feira, quando o Boca visitar, a partir das 21h30, o Cruzeiro em Belo Horizonte, um velho conhecido nas competições da América do Sul.
Paredes, após a vitória por 1-0 sobre o River no superclássico do futebol argentino, revelou que o quarto integrante da mesa de truco —joga-se, comumente, mano a mano, dois contra dois e três contra três— é Javier García, de 39 anos, o terceiro goleiro do Boca, que fazia parte do elenco ‘bostero’ quando Paredes estreou na Primeira, em 2010. Em diálogo com ‘Davoo Xeneize’ e o jornalista Gastón Edul, o capitão do Boca detalhou: “Jogamos de dois, partidas dois contra dois. Comemoramos nós três porque falta o Javi García. Ele joga com a gente”.
Em diferentes meios argentinos, Bareiro destacou que sua dupla é Javi García, enquanto Paredes joga com Merentiel. E que García, por conhecê-lo há tanto tempo, “lê seus vícios e suas mentiras” típicas do truco em Paredes. “Jogamos muito cartas na concentração, gostamos muito de jogar truco, estamos o tempo todo brincando. Tínhamos dito que, se um dos três fizesse um gol, comemoraríamos assim. A partir daí vieram muitos gols dos três”. O trio Paredes-Merentiel-Bareiro teve participação direta (gols ou assistências) em 21 dos 27 gols (77%) em 18 partidas do Boca em 2026. O que acontece fora, sim, se transfere para o campo.
Bareiro —29 anos, 6 gols em 12 partidas com a camisa do Boca, formado no Olimpia do Paraguai— contou que também jogam ao “truco sem cartas”, uma modalidade particular que ensinou aos companheiros (e que se replica na comemoração). Sem baralho físico, baseia-se na memória, na lógica e na malícia. Os jogadores “cantam” as cartas como se as tivessem nas mãos e devem manter a coerência durante toda a mão. Não há flor, falta envido nem chances de ir ao mazo. E o objetivo é chegar a seis pontos exatos sem ultrapassar, o que obriga a pensar cada decisão e medir os riscos.
Em uma próxima comemoração de gol, Paredes não descartou somar Javi García para completar a roda. Paredes, o líder que mudou o ânimo de todo o Boca, é o fator diferencial dentro de campo. Fora dele, atua como integrador, como aconteceu após a chegada de Bareiro. O Boca quer cantar “quero vale a sétima” CONMEBOL Libertadores de sua história. Mas o jogo de truco, desta vez, veio para ficar.