- O clube portenho fundado no bairro Nueva Pompeya disputará sua primeira competição internacional na CONMEBOL Sudamericana.
- Sem cadeias de passes nem posse de bola, cresceu a partir do sacrifício defensivo, do ataque vertical extremo e da bola parada.
O Deportivo Riestra Asociación de Fomento Barrio Colón — como é seu nome completo — disputará sua primeira competição internacional na CONMEBOL Sudamericana 2026. Sua classificação reúne múltiplos fatores, mas dentro de campo há um que se mantém inalterado há quase 15 anos, desde quando competia na Primera D, então a última divisão do futebol argentino: o jogo direto, prescindir das sequências de passes para chegar ao gol e ceder a posse de bola ao adversário como estratégia.
Segundo um relatório de março de 2026 do Centro Internacional de Estudos do Esporte (CIES), sobre jogadas construídas com base nos metros de campo ganhos por passe entre o início e o fim da posse, o Deportivo Riestra é a equipe com o estilo de jogo mais direto (“menos elaborado”) entre as 42 principais ligas do mundo, com uma média de 13,49 metros por passe. Ou seja, realiza os passes mais longos do mundo.
Sobre gostos, muito já foi escrito, e atacar sem a necessidade de trocar passes é a preferência do Riestra. Não importa quem seja o treinador do momento: além de algumas variações, o sacrifício defensivo e a verticalidade extrema — quase sem lateralizar o jogo — não mudam. Ao jogo direto soma-se a bola parada e os duelos físicos nas “divididas” (contatos e choques no limite do regulamento), o que o leva a ser a equipe com mais cartões amarelos (35) no Apertura 2026.
“Onde houver um deles, tem que haver dois nossos! Temos que ser formigas. Temos que trabalhar!”, incentivou seus jogadores Gustavo “Tata” Benítez, treinador do Riestra, antes de entrarem no Monumental para enfrentar o River pelo Clausura 2025, em 28 de setembro. E o Riestra, de forma histórica, venceu por 2–1. Promovido pela primeira vez à elite do futebol argentino em 2024, naquele mesmo ano já havia derrotado o River (2–0) como mandante, no Estádio Guillermo Laza, em Villa Soldati.
O “Tata” Benítez, zagueiro do Riestra durante nove anos (2016–2025), definiu assim a identidade de jogo: “Não ter a bola, já fazemos isso: somos uma equipe de transições rápidas e de ataque vertical. Sempre digo aos jogadores: ‘Nós não podemos ter muita posse: somos rock & roll, é ir para frente, rápido’”. De fato, o Riestra é uma equipe reativa. Entre os 30 clubes da Primeira Divisão argentina, segundo dados da LPF Data, é o time com a menor média de posse de bola por partida em 2026 (38%) e o maior percentual de passes longos (30%). Nas primeiras oito rodadas do Apertura 2026, conseguiu completar uma sequência de dez ou mais passes consecutivos sem intervenção do adversário em apenas quatro ocasiões (no extremo oposto aparecem River, com 97, Racing, com 74, e Rosario Central, com 66). O Riestra, literalmente, quase não toca na bola para jogar.
Em um elenco composto majoritariamente por jogadores com trajetória nas divisões de acesso do futebol argentino, destacam-se Ignacio “Nacho” Arce, um goleiro que controla o ritmo das saídas e sustenta o time com suas defesas quando recua em bloco médio-baixo sem a bola. E, no ataque, Jonathan “El Sultán” Herrera, maior artilheiro da história do clube, que marcou gols em todas as categorias do futebol argentino (D, C, B Metro, Nacional e Primeira Divisão) com a camisa da equipe fundada em 1931, no bairro portenho de Nueva Pompeya.
No centro de treinamento La Candela, onde realiza suas atividades, o Riestra ensaia os laterais transformados em cruzamentos: a estrutura, as posições que cada jogador deve ocupar, quais zonas o adversário libera, os executores, quem comunica dentro da área o sinal da jogada e o tempo entre a saída da bola e a reposição — justamente o momento de maior risco, em que a equipe pode ficar exposta.
“Os gols de bola parada e o jogo mais direto têm uma relação estreita: sabendo que é pouco o tempo em que temos a bola, precisamos maximizar as chances de gol e ser o mais eficientes possível. Escanteios; qualquer bola parada; laterais; lançamentos; o jogo direto; uma reposição e, a partir daí, uma triangulação para cruzar. À bola parada e ao jogo direto damos a mesma importância, no escritório e em campo. Não é por acaso. 90% do treino do dia anterior ao jogo é baseado em saídas de jogo direto e bola parada. E, ao longo da semana, dedicamos 15 minutos dentro do trabalho tático à bola parada. É um círculo virtuoso: treinamos, funciona; funciona, treinamos. O jogo do Riestra é um estilo fora do comum: contra-ataque e bola parada. Levando em conta os recursos e o futebol atual, é eficaz”, afirmou à CONMEBOL Sudamericana Santiago Basile, responsável pela análise de vídeo do Riestra e integrante da comissão técnica de Benítez.
Com sua própria fórmula de jogo, apostando em explorar os espaços deixados pelo adversário por meio de contra-ataques sem a necessidade de trocas de passes, o Deportivo Riestra ascendeu até a elite do futebol argentino. Consciente de suas virtudes, limitações e dos diferentes contextos, agora colocará esse modelo à prova no cenário máximo da América.