- O capitão do Nacional foi entrevistado pela CONMEBOL na véspera da estreia na Copa
- O ‘Bolso’ estreará na quarta-feira, 8 de abril, pelo Grupo B da edição 2026
Com a ilusão intacta e o peso da história sobre os ombros, o Nacional se prepara para uma nova aventura na CONMEBOL Libertadores. Nesse contexto, a voz de seu capitão, Sebastián Coates, surge como uma síntese perfeita entre experiência, pertencimento e ambição.
De volta ao clube que o revelou desde 2024 e após uma longa trajetória na Europa, o zagueiro vive um momento de maturidade, no qual combina liderança dentro e fora de campo com o sonho intacto de conquistar o principal troféu continental.
Nesta entrevista, Coates analisa as fortalezas e os desafios da equipe, reflete sobre as diferenças estruturais em relação a outras ligas da região e reafirma uma convicção que atravessa gerações: quando a bola começa a rolar, a história e o espírito competitivo do Nacional e de seu país sempre se fazem presentes.
CONMEBOL: Está chegando uma nova edição da CONMEBOL Libertadores. Como o Nacional chega para enfrentar esta competição?
SEBASTIÁN COATES: Acho que bem, com a mesma ilusão que sempre temos de estar na CONMEBOL Libertadores, de fazer uma boa campanha, de tentar chegar ao mais alto. Obviamente que talvez tenhamos diferenças em relação a outros times, tanto do Brasil quanto da Argentina, mas o Nacional é um time que historicamente na Copa sempre tem sua história e temos essa responsabilidade de fazer da melhor maneira.
CONMEBOL: Onde você vê a diferença entre o Nacional, ou se quiser levo um pouco mais amplo para o que pode ser o futebol uruguaio, com o futebol brasileiro e com o futebol argentino?
COATES: Acho que primeiro, nos últimos anos o futebol uruguaio talvez tenha caído um pouco na questão de infraestrutura e também, obviamente, economicamente, tanto o Brasil quanto a Argentina sempre foram ligas mais fortes e muitas vezes fazem a diferença também nas contratações de jogadores e nisso, mas há algo bonito que o futebol tem: quando você entra em campo são onze contra onze e há muitas coisas que ficam de lado. Acho que o exemplo mais claro, sobretudo este ano, foi o Lanús contra o Flamengo. Embora talvez não tenhamos tanto poder econômico ou o poder de elenco que os times brasileiros têm, depois quando entramos em campo esquecemos disso e vamos tentar ganhar os jogos.
CONMEBOL: Você me falou de questões de infraestrutura. Você saiu, esteve muitos anos na Europa, e embora já tenha passado um tempo desde a sua volta, não é que você acabou de regressar ao Nacional. Como você vê o clube? Como você o compara em função do que via de fora?
COATES: Obviamente que o clube cresceu muito. Já devem ter visto o centro de concentração, o ginásio, e cresceram muito desde que eu fui embora, fizeram uma grande melhoria. Ainda estamos talvez com a necessidade de seguir melhorando, a questão também dos campos e outras coisas que vão um pouco pelo que estávamos falando agora sobre o futebol uruguaio. Acho que estamos indo por um bom caminho, talvez tenhamos ficado um pouco abaixo das outras ligas, mas em termos de comparação de quando eu fui embora até agora, a verdade é que o clube cresceu muito e tomara que continuemos crescendo.
CONMEBOL: Como você está no aspecto pessoal? Sei que, talvez no fim do ano passado, passou pela sua cabeça a ideia de não continuar. Como você está agora?
COATES: Bom, bem, feliz sempre, feliz de estar aqui no Nacional e, obviamente, é sempre bonito disputar mais uma CONMEBOL Libertadores. Para mim é especial, como eu disse, estar aqui; só vestir esta camisa já é algo muito bonito para mim. Sempre vamos ter a ilusão de lutar pela CONMEBOL Libertadores, de ir por tudo. Também, como disse, conhecemos o que temos e precisamos nos fortalecer com isso, ir jogo a jogo sem perder essa ilusão, que acredito ser o que pode nos levar a conquistar coisas.
CONMEBOL: Você se imagina em algum momento sem as cores, sem o campo ao fundo, ou ainda não?
COATES: Quando se chega a certa idade, a gente já começa a imaginar ou a ter uma ideia do que pode acontecer quando eu me aposentar. Mas hoje estou aproveitando o fato de estar aqui. Aproveito todos os dias de vir treinar, de estar com meus companheiros; talvez seja um pouco isso que sempre se diz: quando você deixar de aproveitar isso, aí sim será o momento de dar um passo ao lado, de se aposentar. Mas hoje, estou aproveitando e também acredito que estou preparado para o dia em que der esse passo. Estou me preparando para isso.
CONMEBOL: Você é um dos mais experientes do elenco e capitão. O que significa para você ser o capitão do Nacional? Como você ajuda, como acompanha todo o elenco e, sobretudo, os mais jovens para enfrentar, especialmente, uma CONMEBOL Libertadores com a história que o Nacional tem no torneio?
COATES: Para mim, ser capitão é sempre uma responsabilidade, encaro assim em todas as equipes pelas quais passei, mas é uma responsabilidade bonita. Eu vejo dessa forma: tentar ajudar meus companheiros, o clube, a partir do meu ponto de vista — sabendo que não sou dono da verdade. Então dou minha opinião em todos os aspectos e procuro ajudar meus companheiros tanto dentro quanto fora de campo. Aos mais jovens, sim, talvez mais por já ter vivido muitas situações que hoje eles estão enfrentando, seja os primeiros jogos ou a ansiedade por não jogar tanto. Mas não tanto por ser capitão, e sim por essa experiência que tive e que tenho hoje. Ainda assim, às vezes os jovens também precisam fazer seu próprio caminho e, por mais duro que seja, precisam aprender com os próprios golpes.
CONMEBOL: Eles te escutam ou não?
COATES: Sim, sim, logicamente que, como eu disse, não fico o tempo todo em cima deles, porque também acho que eles precisam fazer o próprio caminho e tomar decisões que talvez sejam diferentes das minhas ou do que eu penso, mas serão as decisões deles, será a carreira deles. O que sim, dentro de campo, tento orientá-los um pouco, porque talvez não tenham a experiência que tenho hoje. Mas, no que diz respeito a cuidados e esse tipo de coisa, sim, obviamente.
CONMEBOL: Você ainda tem algum sonho a cumprir com o Nacional?
COATES: Bom, obviamente estamos falando da CONMEBOL Libertadores, e é como o sonho de todo jogador: ganhar com o clube do qual é torcedor. Mas, para mim, meu sonho sempre foi jogar no Nacional e isso já cumpri, assim como ser campeão com o clube. Sempre é bom ganhar, e é bonito idealizar ou projetar a carreira com base em conquistas. Meu sonho sempre foi jogar futebol e jogar no Nacional, e isso já está realizado.
CONMEBOL: Estamos em um ano de Copa do Mundo e a Seleção está muito presente na sua realidade. O que significa vestir a camisa do seu país?
COATES: Primeiro, vestir a camisa do seu país, acho que não há nada mais bonito, ou algo que todo menino que um dia sonhou em ser jogador de futebol, além dos clubes, mais desejou foi jogar pela sua seleção. No Uruguai é assim, desde pequeno você está sempre ligado à seleção. Para mim, representar o país foi uma dessas coisas que você vai marcando como objetivos cumpridos na sua carreira. Poder disputar Copas América, poder jogar um Mundial… para mim sempre foi muito especial, sempre aproveitei, jogando ou no banco. Só o fato de estar representando o país, de ser um dos 25 ou 30 convocados para uma Copa do Mundo, sempre foi algo muito bonito para mim.
CONMEBOL: O que significa a “garra charrúa”?
COATES: Acho que isso nasce desde pequeno. Quem conhece o Uruguai sabe que há um campo de futebol, de futebol infantil, em todo lugar; sempre se está competindo. Desde muito jovem se compete, se tenta ganhar sempre, e acho que isso vai sendo transmitido ao longo dos anos: essa vontade de competir, de vencer. Embora sejamos um país pequeno, com pouca população, o futebol é vivido com muita intensidade e acredito que já nascemos com isso — ou nos ensinam isso —, de querer competir e querer ganhar.
Depois, isso se reflete quando você cresce e joga por outros clubes, ou quando nos reunimos na seleção: essa vontade constante de competir. E, além disso, temos uma particularidade: temos duas potências ao nosso lado e sempre queremos competir contra elas. Isso te obriga a estar sempre no máximo. Acho que esse é o nosso ponto forte. Talvez outros países tenham muito mais qualidade, mais técnica e mais físico, mas às vezes falta isso: competir sempre com a vontade de vencer.