Na antesala de uma nova edição da CONMEBOL Libertadores, Leonardo Fernández coloca em palavras o que se vive internamente no Peñarol: ilusão, pertencimento e uma ambição que não se negocia. Referência da equipe e protagonista de um processo de crescimento sustentado no cenário continental ao alcançar as semifinais de 2024 — com ele como uma das grandes figuras do time —, o meio-campista analisa o presente do clube, o caminho percorrido nas últimas temporadas e o desejo latente de voltar a conquistar a “Glória Eterna”.
Com mais de 100 partidas pela instituição, Fernández também abre uma janela para sua história pessoal, seu caráter competitivo e sua relação com o jogo. Entre sonhos realizados e objetivos ainda pendentes, sua visão sintetiza o espírito de um ‘Manya’ que se prepara para competir, fiel à sua identidade, com a convicção de que a Copa sempre recomeça e que a ilusão nunca se negocia.
CONMEBOL: Estamos prestes a começar uma nova edição da CONMEBOL Libertadores. Como o Peñarol chega para encarar este 2026?
LEONARDO FERNÁNDEZ: Sem dúvida que sempre se despertam muitas ilusões. Como todos os anos, digo a mesma coisa: para nós é um privilégio começar uma nova CONMEBOL Libertadores. É um orgulho. E nasce uma nova ilusão. Ou seja, estamos todos bastante loucos para conquistá-la, com as dificuldades que sabemos que existem e que vamos enfrentar. Mas sonhar é de graça, então vamos fazer isso sempre.
CONMEBOL: O que significa estar “louco” para conquistar a CONMEBOL Libertadores?
FERNÁNDEZ: Estar louco é saber que as dificuldades existem e que faz muito tempo que não conseguimos. E essa loucura passa por não ver ninguém acima nem abaixo de nós. Sempre nos colocamos de igual para igual, lutamos contra qualquer adversário e tentamos colocar o escudo acima de tudo. Então é essa loucura que nos faz acreditar que podemos conquistar.
CONMEBOL: Vocês vêm de uma semifinal há dois anos e de oitavas no ano passado. Você sente que, pouco a pouco, o Peñarol voltou a competir na CONMEBOL Libertadores, voltou à primeira linha?
FERNÁNDEZ: Sim, disso estou completamente convencido, porque já faz dois anos que estamos, pouco a pouco, recolocando o clube onde ele deve estar. No lugar onde o Peñarol sempre se sentiu confortável, onde sempre esteve. Claro que isso não se compara nem de perto com conquistar o título.
Mas sabíamos e tínhamos consciência de que fazia muito tempo que o Peñarol — em 2024 já eram 13 anos — não passava de fase. E foi algo que conseguimos até chegar à semifinal, o que não é algo comum, por isso também é valorizado. No ano passado chegamos às oitavas, mas ficamos com a sensação de que poderíamos ter ido mais longe. Nem preciso dizer que, neste ano, nos mentalizamos para fazer uma Copa melhor e, sem dúvida, com a ilusão de conquistar a sexta.
CONMEBOL: Você já está há alguns anos no Peñarol, já esteve em Brasília, também viveu a Copa de outra maneira. Como você vê o futebol uruguaio competindo em nível continental? Sente que falta algo? Como você o posiciona?
FERNÁNDEZ: Não, sem dúvida há muitas coisas a melhorar, muitas mesmo. Mas isso não tira essa fome de conquistar e esse sonho. Também somos conscientes de que, em muitos aspectos, a questão econômica pesa muito, e nesse sentido não conseguimos competir em igualdade. Mas daqui, do peito, sai algo que sempre caracterizou nós, uruguaios: existe algo a mais dentro de nós que, como eu dizia antes, faz com que não nos sintamos nem melhores nem piores que ninguém, mas que nos coloquemos em igualdade para competir contra qualquer um.
CONMEBOL: Você recentemente completou 100 jogos pelo Peñarol. O que significa para você alcançar essa marca?
FERNÁNDEZ: Bom, sem dúvida é algo totalmente sonhado, porque eu sonhei com isso a vida toda. Repito isso porque é real. Sonhei a vida inteira e hoje está acontecendo. No outro dia, meio que não caiu a ficha no momento em que me deram a placa e tudo mais. Mas depois, em casa, tranquilo, sentado, comecei a pensar e não conseguia acreditar. Estive perto de me emocionar, mas me segurei um pouco, mesmo estando sozinho. Mas, enfim, a felicidade minha, da minha família, da minha esposa, ver meus filhos felizes por estarem aqui também, no lugar onde todos queremos estar, é algo que para mim não tem preço.
CONMEBOL: Você disse que quase se emocionou sozinho. Queria te perguntar sobre sua personalidade, porque uma vez você se definiu como um “anão esquentado”. O que isso significa?
FERNÁNDEZ: Sim, mas como as coisas mudaram com o tempo, agora também vamos ajustando certos aspectos pessoais e melhorando. Sempre com o objetivo de crescer, de ser melhor. Eu trabalho muito nisso. Quando falo de “anão esquentado”, quero dizer que gosto de ganhar tudo. Tudo o que jogo, gosto de ganhar. Não gosto de perder nem de passar despercebido. Então, é um pouco isso. É mais um espírito competitivo do que apenas uma questão de irritação — vai mais por esse lado competitivo.
CONMEBOL: Nesse processo de competir e evoluir, no seu jogo se destaca a qualidade na batida na bola. Quanto você treina isso? Em que momento percebeu que era bom nisso?
FERNÁNDEZ: Bom, para começar, desde pequeno, com meu pai, íamos a campos menores para chutar. Foi ali que comecei a desenvolver essa batida. E, aos poucos, fui adquirindo conhecimento, principalmente buscando maneiras de aprimorar. E, enfim, praticar… não é que… Por exemplo, agora sim, porque a bola do futebol uruguaio é uma bola difícil de se adaptar… é a verdade. Mas, por exemplo, em 2024, com a bola que usávamos naquele ano, praticamente não treinava. Agora sim, com meu preparador, levei algumas bolas para treinar também por fora. Obviamente com o consentimento do pessoal do clube. E aí, sim, tentei praticar, mas até agora… tem sido um pouco difícil, tem sido um pouco difícil.
CONMEBOL: Ainda não conseguiu se adaptar totalmente?
FERNÁNDEZ: Não, é difícil, difícil porque é uma bola complicada, mas vamos encontrando soluções. Vamos encontrando o jeito. Em movimento, um pouco melhor. Já na bola parada, fica mais difícil. Mas vamos ajustando.
CONMEBOL: Qual objetivo ainda falta alcançar aqui?
FERNÁNDEZ: A CONMEBOL Libertadores, a CONMEBOL Libertadores. Tenho a sorte de já ter conquistado todos os títulos que podemos ganhar no Uruguai. Internacionalmente, falta isso. Falta isso. E, obviamente, este ano é algo que está ali, latente. Espero que as coisas, se Deus quiser, saiam como eu imagino. Mas você sabe que, às vezes, as coisas não acontecem como queremos. Mesmo assim, vamos fazer o possível e buscar de todas as formas para que isso se concretize.
CONMEBOL: Vocês vão colocar esforço para que isso aconteça?
FERNÁNDEZ: Sem dúvida, sem dúvida. Vamos dar o máximo em todos os sentidos, no dia a dia. Desde agora estamos treinando para que, a longo prazo, essas coisas aconteçam. Porque não é apenas quando começa a CONMEBOL Libertadores, mas sim uma preparação que já começa desde agora.
CONMEBOL: Para fechar, se tivesse que escolher um gol seu com o Peñarol na CONMEBOL Libertadores.
FERNÁNDEZ: Na CONMEBOL Libertadores? Não tive muitos gols marcantes, digamos… mas vou contar como gol porque gosto muito das assistências. E, já que estamos aqui, a assistência de 2024 que dei para o Jaime Báez — que também ajudou com o domínio e a finalização. Mas esse passe eu conto como gol porque foi um passe muito bonito e eu também desfruto assim. Então, fico com esse.