- O volante chileno de 32 anos renovou até dezembro de 2029, recusou propostas de outros mercados e se tornou peça indispensável.
- Titular absoluto no meio-campo ao lado de Jorginho, soma 176 partidas e nove títulos desde sua chegada em 2022.
José Boto, diretor de futebol do Flamengo, resumiu a trajetória em 4 de setembro com uma imagem que, no Rio de Janeiro, já virou certeza: “Pulgar, que hoje é um jogador sobre o qual todo mundo escreve maravilhas, e com razão, chegou como mais um.” Erick Pulgar desembarcou em 29 de julho de 2022, vindo da Fiorentina por três milhões de euros, depois de um período de empréstimo no Galatasaray, com contrato até dezembro de 2025 e sem o status de nenhuma das grandes estrelas do elenco. Quatro anos depois, o clube renovou seu vínculo até 31 de dezembro de 2029, um ano a mais do que havia sido acertado verbalmente em agosto, e o próprio jogador explicou o motivo: “O carinho da torcida é o meu maior prêmio.”
Esse carinho pode ser medido em fatos concretos. Segundo O Globo, o Flamengo identificou que o engajamento dos torcedores com Pulgar nas redes sociais “é equivalente ao das principais estrelas do elenco” e, por isso, planeja lançar uma linha de produtos com seu nome, incluindo um boneco com a camisa número 5, algo que até agora só Giorgian De Arrascaeta e Gabigol haviam recebido. Em 13 de setembro, a torcida organizada Juventude Flamengo foi ao Ninho do Urubu — centro de treinamento do clube — para entregar a ele uma bandeira e uma placa. E, em 22 de setembro, os torcedores da CONMEBOL Libertadores o escolheram como “Herói da Semana” por sua atuação contra o Independiente del Valle, no empate por 1 a 1 no Maracanã que o Fla sustentou com dez jogadores durante quase meia hora e que confirmou a classificação às Semifinais.
Os números explicam melhor do que as bandeiras. Pulgar soma 176 partidas pelo Flamengo, com 111 vitórias, 39 empates, 26 derrotas e seis gols. É o volante de contenção de uma equipe que conquistou nove títulos com ele em campo: as CONMEBOL Libertadores de 2022 e 2025, as Copas do Brasil de 2022 e 2024, o Brasileirão de 2025, a Supercopa de 2025 e os Cariocas de 2024, 2025 e 2026. Foi titular durante os 90 minutos da Final de Lima contra o Palmeiras, formando ao lado de Jorginho o doble pivote que Filipe Luís montou em 2025 e que o português Leonardo Jardim herdou em março. A dupla é o motor de uma equipe que tem o ataque em seu DNA: recupera a bola e distribui o jogo para que os outros brilhem.
Sua condição de titular esteve ameaçada em diferentes momentos. Em 29 de junho de 2025, nas Oitavas de Final do Mundial de Clubes contra o Bayern, fraturou o pé direito e ficou mais de três meses afastado. Em 2 de abril deste ano, diante do Red Bull Bragantino, foi expulso e, no mesmo lance, sofreu uma lesão acromioclavicular no ombro direito: mais um mês e meio fora. Voltou no fim de maio, contra o Palmeiras, e desde então não perdeu mais a posição. Sua cláusula para uma transferência ao exterior havia caído para quatro milhões de dólares a partir da janela de julho, e as propostas chegaram: a melhor foi do Al-Jazira, de Abu Dhabi; também houve sondagens do Neom, da Arábia Saudita, e, em julho, Filipe Luís, já no Monaco, pediu sua contratação. Pulgar escolheu ficar. “Era o que minha família e eu queríamos. O tempo que passei aqui, o quanto trabalho e a perseverança que tenho me levaram a ser o jogador que sou hoje”, disse ao renovar.
O que seus companheiros veem é o mesmo que se percebe das arquibancadas do Maracanã. “Pulgar vai contagiando a gente, é um jogador que vibra em cada disputa e isso contagia automaticamente a nossa equipe”, disse seu companheiro Emerson Royal em agosto passado. Zico, o maior ídolo da história do clube, foi ainda mais longe nos últimos dias em entrevista ao AS Chile: “Ele está deixando a torcida do Flamengo muito feliz porque é um grande profissional, uma pessoa batalhadora, que entendeu o que significa vestir esta camisa.” Até um gol dele, o chute de fora da área no ângulo contra o Vitória, em 9 de agosto, com assistência de Léo Pereira, foi escolhido pela torcida como o melhor do mês.
O contraste está no Chile. Pulgar não atua por sua seleção desde outubro de 2024 e recusou as convocações de março, junho e setembro deste ano, com La Roja já fora da Copa do Mundo. Em um comunicado de 15 de setembro, negou qualquer conflito com o técnico Nicolás Córdova e deixou uma frase que também diz muito sobre ele: “Existe uma nova geração que merece apoio, espaço e confiança. Esse deveria ser o foco hoje.” Campeão da Copa América Centenário de 2016, com 54 partidas e quatro gols pela seleção, hoje concentra toda a sua energia no Rio de Janeiro.
Erick Pulgar será uma peça-chave para Jardim quando começar a série contra o Estudiantes pelas Semifinais da CONMEBOL Libertadores. O jogo de ida será disputado em 15 de outubro, em La Plata, e a volta, no dia 22, no Maracanã. No ano passado, as duas equipes se enfrentaram nas Quartas de Final, com vitória e classificação daquele que mais tarde seria o campeão. Sem ser capitão, sem ser artilheiro e sem ter sido a contratação mais cara, o chileno se transformou naquilo que qualquer clube mais valoriza em um volante de contenção: decidir, desarmar e distribuir, além de contagiar seus companheiros com uma atitude positiva inesgotável.