- O treinador que disputará sua quarta final da CONMEBOL Libertadores pelo Palmeiras é amigo e discípulo do atual técnico do Real Madrid, a quem cita e tem como referência.
- “Ele faz algo difícil, que não costuma acontecer: depois de ganhar muito, não foi embora”, elogiou ‘Mou’ sobre o treinador que está há quase seis anos no comando do Verdão.
Em março de 2021, dois meses depois de conquistar a CONMEBOL Libertadores 2020 como técnico do Palmeiras, Abel Ferreira concedeu uma entrevista por videochamada ao programa de televisão Seleção SporTV, diretamente de sua cidade natal, Porto, durante um período de descanso com a família. Talvez por estar em sua terra natal, o português afirmou que os treinadores de seu país deviam tudo a José Mourinho, por ter sido fundamental para abrir caminho à expansão dos técnicos portugueses pelo mundo. “É difícil ter que atravessar o Atlântico. Nossa maior referência é Mourinho. Ganhou tudo em vários clubes de diferentes dimensões, jogando de maneiras distintas. Foi o primeiro a alcançar grandes feitos, a abrir portas”, destacou Ferreira.
Quando o atual técnico com mais títulos na história do Palmeiras (11 conquistas, superando em março as dez de Oswaldo Brandão) e há mais tempo à frente de um clube do Brasileirão (quase seis anos) se casou, há duas décadas, com a psicóloga Ana Xavier — que conhece desde os tempos de escola —, levou três livros de Mourinho para a lua de mel. “Minha esposa me perguntou: ‘O que você está fazendo com esses livros? Não vai ter tempo para estudá-los nem lê-los’. Eu ainda era jogador, mas me perguntava o que aquele treinador, de quem todos falavam maravilhas, tinha de tão especial. Diziam que sabia tudo sobre seus adversários, que estudava suas táticas. Mandava pessoas acompanhar os treinamentos dos rivais. E isso despertou muita curiosidade em mim. Ligava para meus amigos que jogavam no Porto e perguntava o que ele tinha de especial. Eles me diziam que parecia o Pelé dos treinadores: fazia com que os jogadores fossem melhores do que realmente eram. Nós, treinadores portugueses, compartilhamos conhecimentos”.
Abel Fernando Moreira Ferreira, de 47 anos, pai de Inês e Mariana, está prestes a disputar sua quarta final da CONMEBOL Libertadores, todas como técnico do Palmeiras. Será no sábado, 28 de novembro, contra o Estudiantes de La Plata, no Estádio Centenário, em Montevidéu, onde, em 27 de novembro de 2021, conquistou o bicampeonato da CONMEBOL Libertadores após a vitória do Palmeiras por 2 a 1 sobre o Flamengo (na edição de 2020, havia derrotado o Santos por 1 a 0 na final, no Maracanã). Diante do Pincha, Abel — que tem Mourinho como referência e hoje se considera amigo do treinador português — buscará sua terceira conquista da Glória Eterna.
Em setembro de 2021, após garantir a classificação para sua segunda final consecutiva da CONMEBOL Libertadores, mesmo sob alguns questionamentos, ao eliminar o Atlético Mineiro (graças ao gol marcado fora de casa no empate por 1 a 1 no jogo de volta, em Belo Horizonte), Ferreira reconheceu que havia se inspirado em Mourinho e Cristiano Ronaldo. “O que diferencia um rato de um homem é acreditar no seu trabalho e na disciplina. Sou português e europeu com muito orgulho. Temos um dos melhores treinadores do mundo, que é Mourinho, e um dos melhores jogadores, que é Cristiano Ronaldo. Quando você olha para Cristiano, vê uma força mental extraordinária, uma disciplina de trabalho insaciável, uma vontade de vencer e fazer sempre o melhor. Essa é a mentalidade portuguesa, e eu nunca vou desistir”, afirmou em entrevista coletiva após a classificação para a final.
Em seguida, relembrou o confronto das oitavas de final da Liga dos Campeões de 2003/04 entre o Porto de ‘Mou’, que acabaria conquistando o título, e o Manchester United de Alex Ferguson: vitória por 2 a 1 em Portugal e empate por 1 a 1 em Old Trafford, com um gol dramático de Costinha, que garantiu a classificação. “Isso me inspirou. Foi o que disse aos meus jogadores: que vínhamos para marcar, com trabalho duro e disciplina, coisas que às vezes faltam no Brasil. Ter rigor, disciplina, trabalho e dedicação diária. É abrir mão de coisas para vencer, e esse é o preço que se paga para estar em uma final”.
Ferreira — que chegou ao Verdão como um desconhecido para os torcedores, no fim de 2020, durante a pandemia de coronavírus — iniciou sua carreira como treinador nas categorias de base do Sporting de Lisboa (depois comandou o Sporting B, o Braga B, o Braga e o PAOK, da Grécia). Em certa ocasião, Abel citou a passagem discreta de Kevin De Bruyne pelo Chelsea de Mourinho para ilustrar a evolução de um jogador. E o próprio ‘Mou’ entrou em contato com ele antes de contratar o uruguaio Matías Viña, então jogador do Palmeiras, para a Roma. Abel e ‘Mou’ nutrem admiração mútua. Compartilham princípios fundamentais do futebol: equipes equilibradas, pragmáticas, intensas e com grande capacidade de adaptação aos diferentes contextos, mesmo quando optam por recuperar a bola em bloco baixo, reduzindo os espaços. Com a organização defensiva assegurada, mantêm-se atentos aos detalhes para explorar as fragilidades do adversário. Cabeça fria, coração quente (2022) é o título do livro escrito por Ferreira, no qual revela os bastidores e o planejamento tático por trás do bicampeonato da CONMEBOL Libertadores com o Palmeiras.
Assim como Mourinho, Ferreira já abandonou entrevistas coletivas, irritado com determinadas perguntas e com o tratamento recebido da imprensa. Chegou até a ler estatísticas — uma por uma — de uma partida específica para defender o desempenho de sua equipe. Criticou arbitragens. Enviou recados aos torcedores, recorrendo a jogos psicológicos que provocam polêmicas e debates. Criou narrativas sob o lema de “Palmeiras contra todos os inimigos” para fortalecer a união do grupo. Assim como The Special One — apelido que o próprio Mourinho atribuiu a si mesmo —, Abel desperta opiniões divergentes: amor e ódio. Recebe frequentemente cartões vermelhos e amarelos por comportamentos e atitudes veementes e efusivas à beira do campo. “Vivo o futebol de uma forma intensa e apaixonada. Vou me esforçar para me comportar melhor. Gosto de aprender e, todos os dias, quero ser um treinador melhor”, reconheceu certa vez. Existe, no entanto, um consenso de que compreendeu o espírito do torcedor palmeirense e transformou o clube para sempre.
Em agosto de 2025, em entrevista ao canal SportyNet, Mourinho, que havia retornado ao Real Madrid no meio daquele ano, elogiou seu discípulo: “Abel é, sem dúvida, a grande referência entre os treinadores portugueses. Não apenas pelo que conquistou, porque Abel ganha a Libertadores, o Brasileirão, fica no clube um, dois, três, quatro, cinco anos… Ele faz algo difícil, algo que os treinadores não costumam fazer: depois de ganhar muito, não foi embora. Sempre permaneceu em uma equipe que, obviamente, oferece condições fantásticas. É evidente a boa relação entre ele e a presidente, mas o clube está sempre vendendo jogadores, desenvolvendo outros, encontrando soluções; tem sido uma trajetória brilhante”.
E ficou por tanto tempo — tem contrato até dezembro de 2027 e hoje mora com a esposa e as filhas no Brasil, depois de ter chegado sozinho — que Abel Ferreira pode agora conquistar sua terceira CONMEBOL Libertadores e, assim, igualar Osvaldo Zubeldía (1968, 1969 e 1970) no segundo lugar entre os treinadores com mais títulos da competição, com três conquistas, atrás apenas de Carlos Bianchi (quatro). Mas, para isso, seu Palmeiras, uma equipe que marcou época, terá justamente de superar o clube com o qual Zubeldía conquistou seus títulos e no qual é considerado um símbolo até hoje: o Estudiantes de La Plata. Mais um desafio na trajetória do treinador mais ‘mourinhista’ do futebol.