- O Recoleta passou da última divisão paraguaia a eliminar um campeão da América como o San Lorenzo para avançar às Oitavas de Final da CONMEBOL Sudamericana.
- Após anos de rebaixamentos e reconstrução, a equipe paraguaia conseguiu retornar à Primeira Divisão em 2024 e hoje vive a maior página de sua história em uma estreia internacional impactante.
Com muito trabalho, o Recoleta construiu um crescimento sustentado que agora encontra sua recompensa no cenário continental. “Los Canarios” transformaram uma história de esforço e perseverança em uma campanha inesquecível.
A “Grande Conquista” é palco constante de feitos heroicos e façanhas memoráveis. A trajetória que o Deportivo Recoleta vem construindo na atual edição da CONMEBOL Sudamericana já começa a ganhar espaço entre as mais marcantes da temporada.
Em um grupo formado por San Lorenzo, campeão da primeira edição da competição; Santos, campeão da América com Neymar e Gabigol em suas fileiras; e Deportivo Cuenca, de longa trajetória em competições internacionais, quem roubou todas as atenções foi o “Funebrero”, que garantiu sua vaga nas Oitavas de Final de forma invicta.
O caminho à Primeira Divisão e os golpes do rebaixamento
A trajetória do Recoleta tem muito de resistência. O clube conquistou seu primeiro acesso à elite do futebol paraguaio em 2001, um marco que alimentou uma enorme ilusão para uma instituição acostumada a lutar desde baixo. A permanência, no entanto, durou pouco: caiu em 2002 e voltou a ser rebaixado em 2003 e 2004, respectivamente, uma sequência que o empurrou até a última divisão do futebol local.
“Sabíamos que vínhamos jogar no campo de um grande do continente”, analisou o técnico Jorge González após a classificação. “Enfrentamos duas equipes muito fortes, como Santos e San Lorenzo, e também, ao mesmo tempo, uma equipe em construção e muito bem estruturada, como o Cuenca. E, no fim, estamos aqui comemorando, acreditando em algo que praticamente ninguém acreditava e terminando em primeiro no grupo”.
O início do ressurgimento
A reconstrução levou tempo. Em 2015, a equipe retornou à terceira divisão, dando o primeiro passo para recuperar terreno depois de anos adversos. Sete temporadas mais tarde, em 2022, alcançou outro objetivo e deu o salto ao segundo escalão do futebol paraguaio, confirmando a consolidação do projeto.
Apenas um ano depois, veio uma das campanhas que começou a chamar a atenção de todo o país. Na Copa Paraguay 2023, “Los Canarios” assinaram sua melhor participação ao chegar às quartas de final e ficar entre os oito melhores do torneio: foi o primeiro grande sinal de que podiam competir de igual para igual com elencos mais poderosos.
Primeira Divisão e aparição internacional
O grande salto aconteceu em 2024. O Recoleta foi campeão da División Intermedia e conquistou o tão esperado retorno à Primeira Divisão após 22 anos de ausência. Já consolidado na elite, encerrou a temporada 2025 na sexta posição da tabela acumulada e garantiu a classificação para a CONMEBOL Sudamericana.
Na primeira fase, teve pela frente o Nacional, um dos clubes paraguaios de maior tradição em competições continentais, e deu o primeiro grande golpe: depois do empate por 1 a 1 no tempo regulamentar, o Recoleta venceu na disputa por pênaltis e avançou à Fase de Grupos. Antes da cobrança, o técnico Jorge González substituiu Nelson Ferreira por Óscar Toledo, que defendeu duas finalizações da marca dos doze passos.
Em sua primeira participação na Fase de Grupos de uma competição internacional, a equipe paraguaia terminou invicta, protagonizou uma surpresa na última rodada — como visitante — diante do San Lorenzo e agora aguardará seu adversário nas Oitavas de Final da competição. “Los Canarios” surpreenderam desde o início ao empatar na estreia contra o San Lorenzo e conquistar um memorável 1 a 1 fora de casa diante do Santos.
Na terceira rodada, empatou sem gols com o Deportivo Cuenca no Defensores del Chaco e, na visita do Santos, reagiu ao gol de Neymar para somar um ponto a quatro minutos do fim. No Equador, construiu outro empate com sabor épico ao ficar no 2 a 2 diante do Deportivo Cuenca e, no “Nuevo Gasómetro”, o gol de Allan Wlk garantiu uma das vitórias mais importantes de sua história.
Para o técnico Jorge González, o triunfo sintetiza o trabalho realizado: “Só posso explicar que se trabalha para alcançar os objetivos. Fizemos praticamente a mesma partida que desenvolvemos contra o Santos: naquela oportunidade, estivemos em vantagem, depois eles empataram e tentamos cuidar do resultado. Hoje, muita coisa estava em jogo para nós. Sabíamos bem que, se perdêssemos, não aconteceria nada, nada mudaria. Somos um clube humilde, de um bairro ao lado de um cemitério, que está construindo sua história passo a passo. E hoje acredito que muitos estão falando bem do nosso trabalho, porque isso só pode ser alcançado com trabalho, com humildade, acreditando no que os jogadores estão realizando. Acima de tudo, temos um elenco muito amplo”.
A história do Recoleta parece sempre reservar mais um capítulo. Sua façanha no Nuevo Gasómetro, em uma autêntica noite de Copa, é a confirmação do crescimento de um clube que saiu da última divisão paraguaia para competir entre os melhores do continente em pouco mais de uma década.
O próprio González traçou um paralelo para explicar a dimensão do feito: “Na prévia contra o San Lorenzo, falamos sobre uma passagem da Bíblia, sobre Davi e Golias... Sabíamos que tínhamos tudo a perder, mas, se ganhássemos, se ganhássemos, aconteceria isso que está acontecendo. O Recoleta está sendo mencionado em todo o continente. No Paraguai, somos o único time que está invicto. Na chave, cumprimos bem nosso papel. Hoje o San Lorenzo também perdeu, e vinha invicto, então estamos ficando poucos, mas a alegria é essa”.