- O meio-campista é um dos maiores nomes do Boca Juniors (Argentina)
- O ‘Xeneize’ estreará no próximo dia 7 de abril diante da Universidad Católica do Chile, pelo Grupo D
Há retornos que não se explicam apenas pelo futebol. Há histórias que começam muito antes do primeiro passe, do primeiro contrato ou da estreia em campo. A de Leandro Paredes com o Boca Juniors pertence a essa categoria: a dos sonhos que nascem na infância, atravessam continentes e que, mais cedo ou mais tarde, encontram seu lugar.
Depois de conquistar a Copa do Mundo, de volta ao clube que o formou e do qual é torcedor declarado, o meio-campista se prepara para viver uma conta pendente: disputar a CONMEBOL Libertadores com a camisa azul e ouro dentro de campo. Nesta entrevista à CONMEBOL, Paredes relembra seu vínculo emocional com o Boca, seu percurso na Europa, o peso de La Bombonera, o papel de referência em um elenco jovem e também aprendizados que vão além do futebol, como a importância da saúde mental.
Uma viagem íntima que vai do garoto que sonhava em pisar nesse estádio ao emblema que ilusiona seus torcedores com a sétima CONMEBOL Libertadores.
CONMEBOL: A estreia na fase de grupos da CONMEBOL Libertadores está se aproximando e será a primeira com o Boca em campo, já que você não havia disputado partidas antes. Quais são as sensações? Existe certa ansiedade? Você já está pensando nisso?
LEANDRO PAREDES: Não, ansiedade não. Sim, muita ilusão, muita vontade de poder disputar essa competição. Quando estive aqui na minha primeira passagem, era muito jovem, não tive a oportunidade de competir em um torneio tão importante como é a CONMEBOL Libertadores para toda a América do Sul. Será um sonho para mim.
CONMEBOL: Como você imagina essa primeira noite de Copa na La Bombonera?
PAREDES: Sim, obviamente já vivi isso porque tive a chance de ir para a concentração, de ver como era. Mas agora vou viver de outra maneira, sendo muito mais protagonista. Será uma noite muito importante.
CONMEBOL: Quero abordar o seu fanatismo pelo Boca: sabe-se que você é muito torcedor, tem uma tatuagem no peito em que aparece você caminhando de costas. Por que decidiu fazê-la?
PAREDES: Olha, fiz quando era garoto, porque desde pequeno tive minhas duas irmãs que fizeram de tudo para me tornar torcedor do Boca, porque na minha família havia muitos que queriam que eu fosse do Independiente ou do San Lorenzo. Havia uma divisão de torcedores na família, mas tive a sorte de que minhas duas irmãs fizeram todo o possível para que eu fosse do Boca. Sou totalmente grato a elas por isso. E fiz essa tatuagem pela paixão, pelo fanatismo que tenho por este clube, por um sonho que tinha desde muito pequeno de poder jogar uma partida na La Bombonera, e essa tatuagem reflete tudo isso.
CONMEBOL: Muita gente faz o escudo, mas você tatuou a Bombonera. Por quê?
PAREDES: Porque desde muito pequeno tinha o sonho de conhecê-la, de um dia poder jogar uma partida nesse estádio. Se me pedissem para escolher um estádio na infância onde jogar, seria La Bombonera. Acho que, sem dúvida, tudo isso está refletido nessa tatuagem.
CONMEBOL: Você lembra de um momento em que disse: “agora sou torcedor do Boca, isso me fez torcedor do Boca”?
PAREDES: Obviamente sempre existe essa paixão desde muito pequeno, mas aos sete anos, quando fui pela primeira vez à La Bombonera e tive a sorte de conhecê-la, ali completei tudo o que me faltava, porque ainda não a conhecia e tinha o sonho de um dia conseguir. A partir daí, com certeza, minha paixão cresceu muito. Foi em um dia de jogo, Boca x San Lorenzo, o dia em que o Carlos Tevez marcou dois gols, um jogaço que o Boca perdia por dois a zero.
CONMEBOL: Quem dos seus companheiros mais perguntava sobre o Boca ao longo da sua carreira?
PAREDES: Foram muitos. Tive a sorte de encontrar na minha carreira muitas pessoas com muita paixão pelo Boca. Quando cheguei à Europa, o primeiro que me deixou louco foi o Daniele De Rossi, com quem joguei na Roma; ele tinha o sonho de vir jogar aqui e teve a sorte de realizá-lo. O Ander também, o Pogba, o Lukaku… são pessoas que sempre me perguntavam muito sobre o Boca, sobre La Bombonera. Tenho uma relação muito próxima com eles; com o Ander tenho a sorte de compartilhar agora e com o Daniele falo bastante, ele continua muito ligado ao Boca.
CONMEBOL: Entre seus companheiros na Europa há um com quem você também divide a Seleção, Paulo Dybala, que se sabe ser torcedor do Boca ou, ao menos, já declarou isso em alguma entrevista quando era jogador do Instituto. Você gostaria de tê-lo como companheiro aqui, disputando a CONMEBOL Libertadores?
PAREDES: Para mim seria um sonho. Ele também tem muita vontade, tem um sonho a realizar, assim como seu pai. Há muitas coisas no meio que o levarão a tomar a decisão, seja de vir ou não, e ele terá seus motivos para isso. Do meu lado, tomara que se concretize, tomara que possa estar aqui e que possamos contar com ele, porque seria algo muito importante para todos.
CONMEBOL: Vou voltar aos seus inícios: você tem muita base no futebol infantil, em San Justo e Mataderos, que está ligada à sua formação como jogador. Entendo que também há uma formação dos clubes de bairro para os meninos e meninas como pessoas nesse processo. Você acredita que os clubes de bairro são importantes?
PAREDES: Sim, sem dúvida, sem dúvida. Tive a oportunidade e a sorte, desde muito pequeno, de chegar a um clube chamado Brisas del Sur, que era comandado por Rosario Nanía, que foi certamente uma das pessoas mais importantes na minha carreira, porque me fez crescer muito não apenas como jogador, mas também como pessoa. Desde cedo me ensinou a paixão pelo esporte, o respeito por esse esporte, o respeito pelos treinadores e pelos meus companheiros. Então, acredito que os clubes de bairro ajudam muito no crescimento de alguém, não só como jogador, mas como pessoa.
CONMEBOL: Hoje, no Boca, você ocupa outro papel, como um jogador mais experiente, e há muitos jovens no clube, no Boca Predio, além de outros que estão surgindo na equipe principal. Algum deles te chama especialmente a atenção?
PAREDES: Sim, há muita qualidade, muito futuro nas categorias de base. Mas, hoje, vendo o Tomás (Aranda), pela forma como joga, pela intenção de jogo que tem, pela qualidade e pela maneira como entende o futebol, é um dos que mais me chama a atenção. Tomara que continue aproveitando, evoluindo, que eu possa ajudá-lo a crescer, a desfrutar e que possa nos ajudar muito.
CONMEBOL: Você conversa com o Tomás? Dá conselhos a ele ou a outros jovens que surgem no time principal?
PAREDES: Sim, tento conversar o máximo possível, procuro tirar um pouco da responsabilidade deles, que tentem aproveitar, porque não é todo dia que se está no time principal do Boca, ao lado dos jogadores que têm ao redor. Tomara que possam crescer, aproveitar e ajudar muito.
CONMEBOL: Esse retorno ao Boca tem muitas diferenças em relação à sua primeira passagem. Uma delas é que agora você tem três filhos, que são torcedores do Boca. Eles te perguntam sobre o Boca? Sobre La Bombonera?
PAREDES: Claro, claro. Os três — o mais novo ainda é muito pequeno, mas os outros dois vão transmitir essa paixão, porque os dois mais velhos têm uma paixão enorme pelo Boca. E minha decisão de voltar também foi pela minha filha mais velha, que tinha muita vontade de me ver com essa camisa, muita ilusão. Vê-los na La Bombonera cada vez que jogamos lá é um sonho muito grande.
CONMEBOL: Quando você chegou ao clube, o treinador era Miguel Ángel Russo, campeão da CONMEBOL Libertadores com o Boca. Você acredita que ele deixou algum legado para o clube ou para vocês como jogadores?
PAREDES: Sim, sem dúvida. Para o clube, obviamente, por tudo o que fez e por tudo o que conquistou. Para nós, como jogadores e como pessoas — pelo menos para mim, no pouco tempo em que o conheci —, ele me transmitiu o que é a paixão, o respeito por este esporte e por este clube. Só tenho palavras de agradecimento. Tive a sorte de conhecê-lo antes de sua saída; infelizmente foi pouco tempo ao seu lado, mas aprendi muito.
CONMEBOL: Há um tema interessante relacionado à saúde mental, a tudo o que envolve os jogadores e o profissionalismo. Você já contou que fazer terapia te ajudou em diferentes momentos. Poderia explicar em que te ajudou?
PAREDES: Sim, é uma das coisas de que me arrependo por não ter começado antes. Acho que teria me ajudado muito na minha carreira. Antes de procurar uma psicóloga, poderia ter me ajudado em muitas situações fora do futebol, que acabavam me fazendo pensar mais no que acontecia fora do que dentro de campo. E acredito que, com a ajuda do psicólogo, encontrei muitas soluções que antes não encontrava. Da minha parte, aconselho os jovens a começarem o quanto antes com esse tipo de ajuda, porque é algo muito importante não só para o esporte, mas também para a vida pessoal.
CONMEBOL: Se eu te pedisse para completar uma frase, o que é a CONMEBOL Libertadores para você?
PAREDES: A CONMEBOL Libertadores é um sonho.